
Novo concorrente da poupança pode mudar captação para crédito habitacional
Título público lançado em maio alcançou R$ 2 bilhões em aplicações no primeiro mês. Eventual migração em grande escala pode reduzir uma fonte tradicional de recursos baratos para os bancos, embora o impacto ainda seja incerto.
O rápido crescimento do Tesouro Reserva, novo título público destinado principalmente à formação de reservas financeiras, abriu uma discussão sobre os possíveis efeitos da concorrência com a caderneta de poupança. Lançado em 11 de maio de 2026 pelo Tesouro Nacional, pela B3 e pelo Banco do Brasil, o investimento alcançou R$ 2 bilhões em aplicações durante seu primeiro mês de operação.
A preocupação está relacionada ao papel histórico da poupança no financiamento da compra e da construção de imóveis. No modelo tradicional do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, as instituições financeiras devem direcionar 65% dos recursos captados pela modalidade para operações de crédito imobiliário.
Isso não significa, contudo, que 65% de todo o financiamento imobiliário brasileiro venha atualmente da poupança. O percentual corresponde a uma obrigação de direcionamento aplicada sobre o saldo captado pelas instituições. Além disso, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional instituíram um novo modelo que prevê a elevação gradual desse direcionamento até 100%, com mudanças na forma de contabilizar as operações.
Tesouro Reserva disputa espaço com a poupança
O Tesouro Reserva foi criado com aplicação mínima de R$ 1 e rendimento equivalente a 100% da taxa Selic. O título não sofre marcação a mercado, mecanismo que pode provocar oscilações no valor de outros papéis públicos antes do vencimento, e permite solicitações de resgate praticamente durante as 24 horas do dia.
Neste primeiro momento, o produto está disponível aos clientes do Banco do Brasil. O Tesouro Nacional informou que outras instituições poderão ser integradas posteriormente.
As características colocam o novo produto em concorrência com a poupança, os CDBs de liquidez diária e as chamadas “caixinhas” oferecidas por instituições financeiras. A proposta é alcançar principalmente pequenos investidores que procuram facilidade de acesso, segurança e disponibilidade rápida do dinheiro.
A comparação de rentabilidade, entretanto, depende do prazo e do valor aplicado. Enquanto a poupança é isenta de Imposto de Renda para pessoas físicas, o Tesouro Reserva segue a tabela regressiva do IR e tem cobrança de IOF nos resgates realizados nos primeiros 30 dias. A taxa de custódia da B3 é de 0,20% ao ano, com isenção para aplicações de até R$ 10 mil.
Poupança perdeu R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre
A chegada do novo título ocorreu em um período de pressão sobre a caderneta. Em 2025, os saques superaram os depósitos em R$ 85,568 bilhões, no quinto ano consecutivo de retirada líquida. Foi o terceiro pior resultado da série histórica, atrás de 2023, quando a saída foi de R$ 87,819 bilhões, e de 2022, quando chegou a R$ 103,237 bilhões.
Nos primeiros quatro meses de 2026, a poupança registrou saídas líquidas consecutivas. Foram retirados R$ 23,5 bilhões em janeiro, R$ 6,6 bilhões em fevereiro, R$ 11,1 bilhões em março e R$ 476,4 milhões em abril.
A sequência foi interrompida em maio, quando houve entrada líquida de R$ 2,6 bilhões. Em junho, porém, a caderneta voltou ao campo negativo, com retirada de R$ 237,5 milhões. No acumulado do primeiro semestre de 2026, os saques superaram os depósitos em aproximadamente R$ 39,3 bilhões.
Os juros elevados ajudam a explicar parte desse movimento. Quando a Selic permanece em níveis altos, aplicações vinculadas à taxa básica ou ao CDI tendem a ganhar atratividade em relação à poupança.
Menos poupança pode significar crédito mais caro?
Em tese, uma queda prolongada dos depósitos reduz o volume de uma fonte tradicionalmente barata de recursos para os bancos. Caso o dinheiro precise ser substituído por captações mais caras, como títulos bancários e instrumentos do mercado de capitais, parte desse custo pode chegar às taxas cobradas dos compradores de imóveis.
O resultado poderia ser uma oferta mais restrita de financiamento, exigências maiores de entrada ou juros superiores. Esse efeito, porém, não é automático e dependerá da dimensão da migração, da trajetória da Selic, da concorrência entre os bancos e da disponibilidade de outras fontes de recursos.
A Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança considera que o Tesouro Reserva tem características competitivas, mas avalia que ainda é cedo para calcular seu impacto efetivo. A entidade também aponta que o crédito imobiliário já vem diversificando suas fontes, com crescimento de instrumentos como Letras de Crédito Imobiliário, Certificados de Recebíveis Imobiliários e Letras Imobiliárias Garantidas.
Novo modelo tenta ampliar recursos para habitação
A mudança regulatória aprovada pelo Conselho Monetário Nacional procura reduzir limitações do sistema atual. Segundo o Banco Central, o novo formato pode disponibilizar R$ 111 bilhões no primeiro ano, montante R$ 52,4 bilhões superior ao que seria oferecido pelas regras anteriores.
A reforma indica que o governo e as autoridades monetárias reconhecem a necessidade de diversificar e tornar mais eficiente o financiamento habitacional. A poupança deverá continuar relevante, mas dividirá espaço crescente com recursos do FGTS, títulos privados, mercado de capitais e captações livres dos bancos.
Para o investidor, o Tesouro Reserva representa mais uma opção de aplicação. Para o setor imobiliário, seu sucesso reforça a necessidade de construir fontes estáveis e competitivas de financiamento, evitando que a redução da poupança seja traduzida diretamente em crédito mais caro para as famílias.