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Negros são 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais no Brasil

Anuário mostra queda geral da violência, mas mantém forte desigualdade racial entre vítimas

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, menor taxa da série histórica. Apesar da queda, pessoas negras seguem concentrando quase 80% das vítimas.

Pessoas negras representaram 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais no Brasil em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O dado mostra uma forte concentração racial entre as vítimas, já que pretos e pardos somam 55,5% da população brasileira, conforme o Censo 2022 do IBGE.

O país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, com taxa de 19,1 por 100 mil habitantes. O número representa queda de 8,2% em relação a 2024 e de 31% na comparação com 2012, primeiro ano da série histórica do Fórum. Foi também a primeira vez que a taxa nacional ficou abaixo de 20 por 100 mil habitantes.

Mortes violentas intencionais caem no Brasil

A queda geral das mortes violentas intencionais é um dado relevante para a segurança pública brasileira. O resultado indica avanço em parte dos indicadores nacionais e sugere que políticas de repressão qualificada, investigação, integração entre forças policiais e ações locais podem ter contribuído para reduzir a letalidade em algumas regiões.

No entanto, o recorte por raça e cor mostra que a redução não ocorre de forma equilibrada entre os grupos populacionais. A população negra segue sendo a mais atingida em todas as categorias analisadas pelo Anuário.

A categoria “mortes violentas intencionais”, ou MVI, foi criada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública para reunir diferentes ocorrências letais. Ela inclui homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, em serviço e fora dele.

População negra concentra maior parte das vítimas

Nos homicídios dolosos, pessoas negras representaram 79,9% das vítimas em 2025. O percentual é semelhante ao registrado no conjunto das mortes violentas intencionais e reforça a permanência de uma desigualdade profunda na vitimização letal no país.

A diferença também aparece em outras categorias. Na lesão corporal seguida de morte, pessoas negras somaram 68,6% das vítimas, contra 30,1% de pessoas brancas. No latrocínio, roubo seguido de morte, os percentuais foram de 62,8% e 36,7%, respectivamente.

Esses números não devem ser tratados apenas como estatística racial isolada. Eles refletem fatores como concentração territorial da violência, presença de facções criminosas, vulnerabilidade social, baixa capacidade de investigação em áreas periféricas, evasão escolar, disputas pelo tráfico e ausência de oportunidades econômicas formais.

Mortes por intervenção policial têm maior desigualdade

O maior percentual de vítimas negras aparece nas mortes decorrentes de intervenção policial. Segundo o levantamento, 82% das pessoas mortas nessas ocorrências eram negras, enquanto 17,7% eram brancas.

Esse ponto exige uma análise responsável. O enfrentamento ao crime organizado é indispensável, especialmente em territórios dominados por facções e grupos armados. Ao mesmo tempo, ações policiais precisam seguir critérios técnicos, planejamento, inteligência, uso proporcional da força e controle externo.

Segurança pública eficiente não se resume a mais confronto. Ela depende de investigação qualificada, policiamento preventivo, prisões baseadas em provas, proteção de comunidades vulneráveis e valorização dos policiais que atuam dentro da legalidade.

Homens jovens são maioria entre as vítimas

O perfil das vítimas também revela forte concentração por sexo e idade. Homens correspondem a 90,8% das vítimas de mortes violentas intencionais. Nas mortes por intervenção policial, esse percentual chega a 99,3%.

Jovens de 18 a 29 anos somam 41,6% do total de vítimas. Nas mortes decorrentes de ação policial, a faixa de 18 a 24 anos responde por cerca de 36% dos casos.

Esse recorte reforça a necessidade de políticas específicas para juventude, especialmente em áreas com maior vulnerabilidade. Educação técnica, inserção no mercado de trabalho, esporte, urbanização, combate ao abandono escolar e repressão ao aliciamento por facções são medidas que podem reduzir a exposição de jovens à violência.

Segurança pública exige gestão e presença do Estado

O Brasil conseguiu reduzir a taxa geral de mortes violentas intencionais, mas o dado racial mostra que o desafio permanece grande. A desigualdade na vitimização indica que parte da população continua mais exposta ao crime, à violência armada e à ausência de serviços públicos eficientes.

Para avançar, o país precisa combinar ordem pública, investigação, controle de armas ilegais, combate ao crime organizado, fortalecimento das polícias e políticas sociais focadas em resultado. Também é necessário melhorar a produção de dados, para que governos saibam onde agir e possam ser cobrados por metas objetivas.

O dado central do Anuário é duplo: há uma melhora nacional no número geral de mortes violentas, mas a violência segue atingindo de forma desproporcional a população negra, especialmente homens jovens. A redução sustentável da criminalidade dependerá da capacidade do Estado de proteger vidas, garantir segurança jurídica e impedir que territórios vulneráveis sejam controlados pelo crime.

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