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Brasil tem mais sargentos do que soldados nas polícias militares

Pirâmide invertida nas PMs expõe distorção operacional e fiscal

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o país possui 129 mil sargentos e 117 mil soldados, cenário que pode reduzir o efetivo disponível para o policiamento nas ruas.

O Brasil possui atualmente mais policiais militares na graduação de sargento do que soldados, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na terça-feira, 4 de agosto de 2026. Com base em dados de 2025, a pesquisa identificou aproximadamente 129 mil sargentos e 117 mil soldados nas corporações estaduais.

O fenômeno foi registrado em 17 estados e no Distrito Federal e revela uma inversão na estrutura tradicional das polícias militares. Em uma organização hierárquica equilibrada, a base formada por soldados e cabos deveria ser numericamente maior do que os grupos responsáveis por supervisão, coordenação e comando.

O país reúne cerca de 413 mil policiais militares na ativa. Desse total, 32% são sargentos, 28,9% soldados, 23,9% cabos e 4,5% subtenentes, conforme os dados divulgados. O restante está distribuído entre as diferentes patentes do oficialato.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública utiliza informações fornecidas por secretarias estaduais e outras instituições oficiais para produzir seus diagnósticos sobre as forças de segurança. A entidade define seus levantamentos como instrumentos para ampliar a transparência e melhorar a avaliação das políticas públicas do setor.

Número de sargentos supera base operacional

Em 12 estados e no Distrito Federal, o número de sargentos já seria superior à soma de soldados e cabos. Na prática, isso significa que algumas corporações possuem mais profissionais em graduações associadas à supervisão do que policiais nas posições tradicionalmente destinadas ao atendimento inicial e ao patrulhamento ostensivo.

A distorção não significa que todos os sargentos estejam em funções administrativas. Diante da falta de soldados, muitos continuam trabalhando em viaturas, patrulhas e outras atividades operacionais semelhantes às que exerciam antes da promoção.

Esse cenário pode gerar perda de eficiência. Ao mesmo tempo em que o Estado assume uma folha salarial mais elevada, o profissional promovido nem sempre passa a exercer plenamente as atribuições de coordenação e fiscalização previstas para sua nova posição.

O caso mais extremo citado no estudo é o de Rondônia, que teria registrado apenas sete policiais na graduação de soldado na ativa, enquanto mantinha 25 coronéis. O número precisa ser interpretado à luz das regras locais de carreira e confirmado diretamente com a Polícia Militar do estado, mas ilustra o grau de desequilíbrio apontado pela pesquisa.

Promoções e falta de concursos alteraram carreira

Entre as principais causas da inversão estão as promoções por tempo de serviço, os mecanismos automáticos de progressão funcional, a redução da frequência dos concursos públicos e o envelhecimento do quadro policial.

Quando um estado passa vários anos sem contratar novos soldados, os policiais que já integram a corporação continuam avançando na carreira. O resultado é uma diminuição gradual da base da pirâmide, sem que novos profissionais ingressem em quantidade suficiente para substituir os promovidos e os aposentados.

O problema já havia sido identificado na primeira edição do Raio-X das Forças de Segurança Pública, publicada pelo Fórum em 2024. Na ocasião, a entidade registrou 404.871 policiais militares na ativa e alertou para a falta de critérios objetivos e padronizados para dimensionar os efetivos necessários em cada estado.

A recomposição não depende apenas da abertura de vagas. Concursos precisam considerar planejamento orçamentário, capacidade de formação, distribuição territorial, perfil da criminalidade e as necessidades reais do policiamento. Contratações sem planejamento podem pressionar as contas públicas no futuro, enquanto a ausência prolongada de concursos compromete a capacidade operacional no presente.

Aposentadorias pressionam contas estaduais

O levantamento também chama atenção para o impacto previdenciário das forças de segurança. Segundo a pesquisa, aproximadamente 424 mil aposentados vinculados às corporações consomem 34% da folha de pagamento analisada.

O dado reforça a necessidade de responsabilidade fiscal na formulação dos planos de carreira. Promoções concedidas sem avaliação de impacto não elevam apenas a despesa imediata com salários, mas também produzem efeitos de longo prazo sobre aposentadorias e pensões.

Na edição anterior do estudo, o Fórum já havia constatado que os profissionais inativos da segurança representavam 22% dos servidores estaduais aposentados, mas concentravam 33% das remunerações destinadas aos inativos. A remuneração média desse grupo também era superior à observada nas demais áreas do serviço público estadual.

Isso não elimina a necessidade de valorização policial. Profissionais que enfrentam risco, jornadas desgastantes e elevada responsabilidade devem receber remuneração compatível. O desafio é construir carreiras sustentáveis, com critérios transparentes de promoção e equilíbrio entre reconhecimento profissional, eficiência operacional e capacidade financeira dos estados.

Guardas municipais avançam sem dados padronizados

Enquanto algumas forças estaduais enfrentam envelhecimento e redução da base operacional, as guardas municipais continuam crescendo. O efetivo dessas corporações passou de aproximadamente 95 mil agentes para 107 mil entre 2023 e 2025.

O aumento demonstra que os municípios estão assumindo papel cada vez maior na segurança pública. Na primeira edição do Raio-X, o Fórum já apontava a existência de pelo menos 1.467 guardas municipais e alertava para a ausência de uma base nacional unificada e atualizada sobre essas instituições.

A expansão pode reforçar a presença do poder público nas cidades, mas exige treinamento, códigos de conduta, corregedorias, controle externo e divulgação regular de dados. Sem padrões mínimos, o país corre o risco de reproduzir nas estruturas municipais os mesmos problemas de carreira, comando e fiscalização observados nas forças estaduais.

Os resultados indicam que a segurança pública brasileira precisa de uma política permanente de gestão de pessoas. Repor soldados, revisar promoções automáticas e estabelecer critérios nacionais de transparência são medidas importantes para que o dinheiro público resulte em mais capacidade operacional e melhor atendimento à população.

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