
Tesouro transforma títulos em yuan em estratégia permanente na China
Tesouro Nacional pretende realizar emissões anuais de Panda Bonds para criar uma curva de juros de referência e facilitar o acesso de empresas brasileiras ao mercado financeiro chinês.
O governo federal pretende emitir títulos da dívida pública em yuan no mercado chinês todos os anos, transformando uma operação inicialmente apresentada como experimental em uma estratégia permanente de atuação financeira na China. O plano foi detalhado pelo subsecretário da Dívida Pública do Tesouro Nacional, Francisco Segundo, durante webinar promovido pelo Conselho Empresarial Brasil-China em 5 de agosto de 2026.
A primeira venda dos chamados Panda Bonds — títulos emitidos por governos ou empresas estrangeiras no mercado doméstico chinês — ainda está prevista para 2026. A operação depende, entretanto, da conclusão de procedimentos técnicos, da contratação de uma agência chinesa de classificação de risco e de condições favoráveis de mercado. Por isso, o Tesouro afirma que a emissão neste ano é uma intenção, não uma garantia.
Emissões anuais devem criar referência em yuan
Segundo Francisco Segundo, o principal objetivo não é financiar uma parcela relevante das despesas públicas brasileiras, mas estabelecer uma curva soberana de juros em yuan. Essa curva funcionaria como referência para calcular o risco e o custo de futuras captações de empresas brasileiras na China.
O representante do Tesouro afirmou que, nos mercados considerados bem-sucedidos e com potencial para investidores brasileiros, a presença do governo precisa ser recorrente. A ideia é evitar que a taxa de referência fique desatualizada, como ocorreu no mercado europeu durante o período em que o Brasil permaneceu mais de uma década sem emitir dívida em euros.
A estratégia também atende ao interesse de companhias que mantêm negócios, exportações ou projetos ligados à China. Uma emissão soberana costuma servir como parâmetro para títulos corporativos do mesmo país, embora empresas privadas normalmente paguem taxas superiores às cobradas do governo.
A Suzano foi uma das primeiras empresas brasileiras a acessar esse mercado. Segundo informações apresentadas no seminário, a companhia já realizou três operações, somando aproximadamente 2,6 bilhões de yuan. Empresas como Vale, WEG, Petrobras, JBS e Embraer foram citadas como possíveis beneficiárias de uma ampliação desse canal financeiro.
Valor da primeira operação ainda está indefinido
O volume da estreia brasileira permanece em discussão. Em junho, o então ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou uma captação de até 5 bilhões de yuan. Em julho, o secretário do Tesouro, Daniel Leal, mencionou uma operação próxima de 10 bilhões de yuan. A decisão final dependerá da demanda, das taxas oferecidas e das condições cambiais.
O primeiro passo formal ocorreu em 25 de junho, quando o Ministério da Fazenda entregou uma carta de apresentação da República às autoridades reguladoras chinesas. O Plano Anual de Financiamento de 2026 já previa a emissão inaugural em yuan como parte da ampliação da presença brasileira nos mercados internacionais.
Para o governo, a vantagem está na diversificação da base de investidores e na possibilidade de acessar taxas nominais inferiores às observadas em operações denominadas em dólar ou euro. Essa comparação, porém, não pode considerar apenas os juros anunciados: custos de proteção cambial, liquidez, prazos, regras regulatórias e risco de conversão da moeda também precisam entrar no cálculo.
Relação com a China amplia oportunidades e riscos
A iniciativa ocorre em um cenário de forte integração econômica entre Brasil e China. O mercado chinês responde por mais de um quarto das exportações brasileiras e permanece como o principal destino de produtos do agronegócio e da indústria extrativa. Ao mesmo tempo, o crescimento das importações chinesas aumenta a pressão competitiva sobre setores da indústria nacional.
A ampliação dos canais de financiamento pode beneficiar empresas brasileiras, reduzir a concentração das captações em dólar e facilitar investimentos relacionados ao comércio bilateral. Entretanto, uma estratégia permanente em yuan exige mecanismos rigorosos de governança e transparência.
Entre os pontos que precisam ser acompanhados estão a exposição à variação cambial, os controles de capital existentes na China, a dependência das regras locais e a eventual concentração financeira em um país que já ocupa posição dominante no comércio exterior brasileiro. O yuan vem ganhando espaço internacional, mas ainda opera sob controles regulatórios mais rígidos e apresenta menor liquidez global do que o dólar.
Operação não representa submissão financeira automática
Apesar do significado geopolítico da decisão, os dados disponíveis não sustentam, neste momento, a conclusão de que o financiamento público brasileiro ficará “ancorado” na China. No encerramento de 2025, instrumentos relacionados ao câmbio representavam 3,8% da Dívida Pública Federal, enquanto a maior parte do endividamento continuava denominada em reais.
A emissão inaugural também foi descrita pelo próprio Tesouro como uma operação mais qualitativa do que quantitativa. Seu peso inicial deverá ser pequeno diante do estoque total da dívida, que terminou 2025 em R$ 8,635 trilhões.
O risco estratégico dependerá, portanto, da escala alcançada pelas emissões ao longo dos próximos anos, das condições contratuais, da utilização de proteção cambial e da capacidade do Brasil de preservar uma política externa equilibrada, mantendo relações econômicas com a China sem abandonar mercados tradicionais nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões.
A diversificação pode ser financeiramente racional quando reduz custos e amplia a concorrência entre investidores. Ela se torna problemática quando produz concentração excessiva, falta de transparência ou dependência regulatória. Caberá ao Tesouro demonstrar, em cada operação, que os benefícios econômicos superam os riscos fiscais e geopolíticos para a República.