
Washington Oliveira explica por que veículos e imóveis estão sendo utilizados para reorganizar dívidas, fortalecer o caixa e financiar novos investimentos.
Em tempos de crédito caro, empresários recorrem aos próprios bens para ganhar fôlego financeiro
O ambiente econômico brasileiro tem exigido cada vez mais planejamento por parte de empresários, produtores rurais e profissionais autônomos.
Mesmo após os cortes recentes, a taxa Selic estava em 14,25% ao ano em junho de 2026, mantendo elevado o custo do dinheiro no país. Nesse cenário, linhas de crédito tradicionais, principalmente aquelas sem garantia, podem apresentar juros altos, prazos menores e parcelas que comprometem o fluxo de caixa das empresas.
É justamente nesse momento que o empréstimo com garantia de veículo ou imóvel passa a ganhar espaço.
Nessa modalidade, o cliente utiliza um bem como garantia da operação. Como o risco assumido pela instituição financeira é menor, existe a possibilidade de conseguir taxas mais competitivas, prazos maiores e valores mais elevados do que em algumas linhas de crédito pessoal ou empresarial sem garantia.
Busca por crédito com garantia está crescendo
Os números mostram que essa procura não é apenas uma percepção do mercado.
Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, a Abecip, as concessões de crédito com garantia de imóvel somaram aproximadamente R$ 3,16 bilhões somente no primeiro trimestre de 2026.
O resultado representa um crescimento de 25,83% em comparação com o mesmo período do ano anterior, sendo o maior volume já registrado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica da entidade, em 2018.
A carteira nacional de crédito com garantia imobiliária já ultrapassou a marca de R$ 32 bilhões, demonstrando que o brasileiro começa a compreender melhor a possibilidade de transformar parte do patrimônio em capital, sem necessariamente precisar vender o imóvel.
Esse avanço acontece justamente porque os recursos podem ser utilizados para diferentes objetivos, como:
- substituir dívidas caras por uma operação mais organizada;
- reforçar o capital de giro da empresa;
- comprar mercadorias ou equipamentos;
- ampliar instalações;
- investir em novos projetos;
- atravessar períodos de redução nas vendas;
- organizar compromissos financeiros;
- investir em atividades produtivas.
Por que a garantia pode reduzir os juros?
Toda concessão de crédito envolve uma análise de risco.
Quando o empréstimo não possui nenhuma garantia, o banco corre um risco maior de não recuperar o dinheiro em caso de inadimplência. Esse risco costuma ser incorporado ao custo da operação, contribuindo para taxas mais elevadas.
Quando existe um veículo ou imóvel como garantia, a instituição passa a contar com uma segurança adicional. Isso pode permitir melhores condições, embora a taxa final continue dependendo do perfil do cliente, do valor e das condições do bem, da renda comprovada, do histórico financeiro e das políticas de cada instituição.
Por isso, não existe uma taxa única para todos. É necessário comparar não apenas os juros, mas também o Custo Efetivo Total, o CET, que inclui tarifas, seguros, impostos e demais despesas da contratação.
De uma dívida cara para uma dívida planejada
Um dos usos mais inteligentes dessa modalidade pode ser a reorganização financeira.
Imagine uma empresa que acumulou dívidas no cartão de crédito, cheque especial, antecipações ou empréstimos de curto prazo. Somadas, essas obrigações podem gerar diversas parcelas, vencimentos diferentes e juros elevados.
Nesse caso, utilizar um bem como garantia pode permitir a troca de várias dívidas caras por uma única operação, com prazo maior e parcela mais adequada ao fluxo de caixa.
Contudo, essa troca precisa ser acompanhada de planejamento. Reduzir a parcela sem corrigir os problemas que provocaram o endividamento apenas prolonga a dificuldade.
O crédito deve fazer parte de uma estratégia que envolva controle de despesas, organização do fluxo de caixa, formação de reserva e acompanhamento dos resultados da empresa.
Capital para quem deseja crescer
Nem toda contratação acontece por dificuldade financeira.
Muitos empresários utilizam o crédito com garantia para aproveitar oportunidades de expansão.
Em determinados negócios, pode ser mais estratégico preservar o dinheiro disponível no caixa e utilizar uma linha de crédito com prazo maior para financiar a compra de equipamentos, reforçar estoques, ampliar uma unidade ou começar uma nova operação.
O Sebrae destaca que o crédito pode funcionar como um capital adicional para investimentos capazes de promover o crescimento dos pequenos negócios. Ao mesmo tempo, a entidade orienta que a contratação precisa considerar a finalidade do dinheiro e a capacidade real de pagamento da empresa.
A conta precisa ser clara: o investimento realizado com o recurso deve ter potencial para gerar um retorno superior ao custo total do financiamento.
Produtores rurais também procuram alternativas
Em Rio Verde e nos municípios da região, o assunto ganha ainda mais relevância por causa da força do agronegócio.
Produtores rurais convivem com períodos de plantio, colheita, comercialização e recebimento que nem sempre acompanham os vencimentos das despesas. Também enfrentam oscilações nos preços das commodities, custos de insumos, manutenção de máquinas, condições climáticas e necessidade constante de investimentos.
Nesse contexto, veículos, imóveis urbanos, propriedades e outros bens elegíveis podem ajudar na estruturação de operações de crédito, conforme as regras de cada instituição.
Na experiência de atendimento do Grupo Olivew, empresários e produtores da região têm procurado essas modalidades principalmente para reorganizar compromissos, reforçar o caixa e financiar novos investimentos.
Essa procura mostra uma mudança importante de mentalidade: em vez de vender um patrimônio às pressas ou recorrer imediatamente a linhas muito caras, o cliente avalia como utilizar esse patrimônio de maneira estratégica.
O bem continua sendo utilizado?
Normalmente, sim.
No empréstimo com garantia de veículo, o automóvel permanece com o proprietário e pode continuar sendo utilizado. No crédito com garantia de imóvel, o proprietário também permanece utilizando o bem.
Entretanto, existe uma alienação fiduciária vinculada ao contrato. Isso significa que o bem fica formalmente comprometido como garantia até a quitação da dívida.
Por essa razão, a contratação exige responsabilidade. Em caso de inadimplência prolongada, a instituição pode iniciar os procedimentos previstos em contrato para retomada do bem.
Crédito não deve ser tratado como renda
O maior erro é considerar o valor liberado como uma extensão da renda ou do faturamento.
Empréstimo é uma antecipação de recursos que precisará ser devolvida com juros. Antes de contratar, o empresário deve saber exatamente:
- quanto precisa;
- onde o dinheiro será aplicado;
- qual será a parcela;
- de onde sairão os recursos para o pagamento;
- qual será o custo total;
- quais riscos o patrimônio oferecido como garantia estará assumindo.
Quando utilizado sem planejamento, o crédito pode comprometer ainda mais a empresa. Quando utilizado com estratégia, pode reduzir despesas financeiras, organizar o caixa e abrir caminho para novos investimentos.
Patrimônio pode gerar oportunidade, mas exige responsabilidade
O crescimento do crédito com garantia de imóveis mostra que empresários e famílias estão buscando opções mais eficientes em um período no qual o dinheiro permanece caro.
Veículos e imóveis que antes eram vistos apenas como patrimônio imobilizado começam a ser utilizados como instrumentos de reorganização e alavancagem financeira.
Não significa que essa modalidade seja adequada para todas as pessoas.
Cada contratação deve ser analisada individualmente, considerando o valor do bem, a renda, o faturamento, as dívidas existentes, a finalidade do recurso, o prazo e a capacidade de pagamento.
O momento econômico pode ser difícil, mas decisões tomadas no desespero geralmente custam mais caro. Antes de contratar qualquer empréstimo, é fundamental comparar instituições, estudar o CET e contar com uma análise profissional.
Em muitos casos, o patrimônio construído durante anos pode oferecer o fôlego necessário para reorganizar o presente e preparar a empresa para o próximo ciclo de crescimento.
Washington Oliveira
Especialista em Empréstimos e Financiamentos
Grupo Olivew