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Ceará terá fábrica de pele de tilápia para tratar queimaduras

Fábrica de R$ 52 milhões levará curativo de pele de tilápia da UFC à escala industrial

Unidade será instalada em Jaguaribara e deverá processar inicialmente 4,3 mil peles por dia. Tecnologia desenvolvida pela UFC transforma resíduo da piscicultura em curativo biológico, mas comercialização ainda depende de exigências da Anvisa.

O Ceará deverá receber uma fábrica de pele de tilápia para uso médico, com investimento inicial estimado em R$ 52 milhões e previsão de instalação em Jaguaribara, no interior do estado. O projeto pretende levar à escala industrial uma tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC), que utiliza a pele do peixe como curativo biológico para queimaduras e feridas de difícil cicatrização. O empreendimento é apresentado pelos responsáveis como a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala desse material para finalidade médica.

A implantação será conduzida pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. O projeto representa uma etapa importante na transferência de conhecimento produzido dentro da universidade para a iniciativa privada, com potencial de gerar atividade econômica, empregos qualificados e um produto de maior valor agregado a partir de um material que normalmente seria descartado pela indústria de pescado.

Atualmente, o laboratório da UFC consegue processar, em média, até 600 peles de tilápia por mês. A projeção para a unidade industrial é alcançar cerca de 4,3 mil peles por dia no primeiro ano de operação comercial, podendo chegar a 12 mil unidades diárias em uma segunda fase.

Fábrica de pele de tilápia levará pesquisa da UFC à indústria

As pesquisas sobre o uso da pele de tilápia na medicina regenerativa começaram em 2015, no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC. Ao longo de uma década, os estudos avançaram em aplicações relacionadas principalmente ao tratamento de queimaduras e feridas.

Em novembro de 2025, a universidade assinou contrato com empresas do Consórcio Biotec para o licenciamento da tecnologia de obtenção da pele de tilápia liofilizada. O acordo prevê direitos para desenvolvimento, produção e exploração comercial, especialmente na fabricação de um kit de curativo biológico.

A liofilização é relevante para a estratégia industrial porque permite conservar o produto sem a necessidade da mesma estrutura de refrigeração utilizada em versões anteriores estudadas pela universidade. A UFC já havia apontado que essa forma de processamento poderia reduzir custos de armazenamento e transporte.

Jaguaribara alia produção de tilápia e indústria de saúde

A escolha de Jaguaribara também aproxima a fábrica de uma das regiões produtoras de tilápia do Ceará, especialmente na área do Açude Castanhão. Dessa forma, um subproduto da filetagem do peixe poderá alimentar uma cadeia industrial ligada à saúde, criando uma conexão entre piscicultura, ciência e bioindústria.

Segundo reportagem de O Povo, a operação prevê inicialmente cerca de 200 empregos diretos. O modelo também envolve participação do Governo do Ceará na estrutura física do empreendimento, enquanto o consórcio ficará responsável por investimentos relacionados à implantação industrial, equipamentos e processos de produção.

A iniciativa chama atenção ainda pelo conceito de economia circular. Uma matéria-prima de baixo aproveitamento comercial na cadeia tradicional do pescado passa a ser utilizada na fabricação de um produto de maior complexidade tecnológica, agregando valor ao setor produtivo regional.

Como funciona o curativo feito com pele de tilápia

Depois de passar por etapas de limpeza, preparação, esterilização e processamento, a pele de tilápia pode funcionar como cobertura biológica sobre a área lesionada. Pesquisas da UFC identificaram no material grande quantidade de colágeno tipo I, proteína relevante nos processos de reparação da pele.

Segundo a universidade, estudos realizados ao longo do desenvolvimento da tecnologia indicaram vantagens como menor necessidade de trocas de curativos, redução do desconforto e possibilidade de diminuição do uso de insumos durante determinados tratamentos.

Isso não significa, porém, que o produto já esteja liberado para utilização comercial ampla nos hospitais brasileiros. A passagem de uma tecnologia experimental e de pesquisa para uma linha industrial exige uma série de etapas regulatórias.

Comercialização ainda depende da Anvisa

O cronograma informado pelos responsáveis prevê o início das obras a partir de outubro de 2026, seguido por um período estimado entre 15 e 18 meses para construção, instalação de equipamentos e validação de lotes-piloto. Caso as etapas avancem dentro do planejamento, o início operacional poderá ocorrer em janeiro de 2028.

A comercialização do curativo, entretanto, continuará condicionada ao cumprimento das normas sanitárias e aos processos regulatórios necessários perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O projeto evidencia um dos principais desafios da ciência brasileira: transformar pesquisa acadêmica em produto disponível para a população. Caso supere as etapas regulatórias e industriais previstas, a unidade de Jaguaribara poderá ampliar significativamente a capacidade de produção de uma tecnologia desenvolvida no Ceará e abrir uma nova cadeia de valor para a piscicultura nacional.

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