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Lagarta que ataca soja e algodão abriga fungos capazes de degradar isopor

Pesquisa brasileira encontra fungos em lagarta agrícola com potencial contra poluição por plástico

Estudo da UFSCar e da Unesp identificou quatro fungos no intestino da Helicoverpa armigera capazes de interagir com o poliestireno expandido. Pesquisadores ainda investigam se o material é degradado de fato ou reduzido a partículas menores.

Pesquisadores brasileiros descobriram que uma lagarta conhecida por causar prejuízos em plantações de soja, algodão e milho abriga fungos com potencial para degradar isopor. O estudo, publicado na revista BMC Microbiology, foi realizado por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, e investigou a microbiota intestinal da Helicoverpa armigera.

A espécie, chamada popularmente de lagarta-do-algodão, lagarta-da-espiga-do-milho ou lagarta-da-vagem, é uma das pragas agrícolas mais conhecidas do mundo. Agora, o mesmo inseto que preocupa produtores rurais pode ajudar a ciência a encontrar caminhos para lidar com um dos resíduos mais difíceis de reciclar: o poliestireno expandido, nome técnico do isopor.

Lagarta pode ajudar na pesquisa contra poluição por plástico

O isopor é leve, volumoso e derivado do petróleo. Por ter muito ar em sua composição e pouco plástico sólido, a reciclagem costuma ser pouco vantajosa em muitos cenários, já que exige grande volume para retorno econômico limitado. Esse é um dos motivos que tornam o material um desafio ambiental.

Segundo a Agência FAPESP, o estudo foi liderado pelo Laboratório de Biologia Molecular da UFSCar, em colaboração com pesquisadores da Unesp. A proposta foi investigar se microrganismos presentes no intestino de insetos poderiam atuar na degradação do poliestireno expandido.

A linha de pesquisa chama atenção porque parte de uma lógica simples: se determinados insetos conseguem sobreviver em contato com materiais difíceis de decompor, seus microrganismos internos podem produzir enzimas úteis para quebrar polímeros complexos.

Fungos foram isolados no intestino da Helicoverpa armigera

No experimento, as lagartas foram divididas em três grupos. Um recebeu apenas isopor, outro recebeu uma dieta mista com 50% de poliestireno expandido, e o terceiro foi alimentado com dieta convencional. Depois, os pesquisadores analisaram a microbiota intestinal dos insetos por metabarcoding, técnica que identifica espécies por meio de DNA.

A análise mostrou que a dieta influenciou a diversidade de fungos no intestino das lagartas. Em seguida, os cientistas isolaram quatro fungos: Aspergillus sp., Talaromyces sp. e duas espécies de Penicillium.

Esses fungos foram colocados sobre uma película fina de poliestireno durante 60 dias. Ao fim do período, os pesquisadores observaram crescimento, interação com o material e alterações na superfície do polímero por microscopia eletrônica de varredura.

Resultado ainda exige cautela científica

Apesar do potencial, a descoberta não significa que a lagarta ou os fungos já sejam uma solução pronta para eliminar isopor do ambiente. O próprio estudo aponta uma etapa essencial: entender se o poliestireno é realmente degradado em compostos menores e seguros ou se apenas sofre fragmentação, o que poderia gerar microplásticos ou nanoplásticos.

Essa diferença é decisiva. Degradar significa quebrar o material de forma efetiva em substâncias menos persistentes ou aproveitáveis pelos microrganismos. Fragmentar, por outro lado, pode apenas transformar o problema em partículas menores, mais difíceis de recolher e monitorar.

Por isso, a pesquisa deve avançar para análises químicas mais detalhadas, capazes de medir perda de massa, mudanças moleculares e subprodutos gerados durante a ação dos fungos.

Praga agrícola vira fonte de inovação biotecnológica

A Helicoverpa armigera é historicamente vista como ameaça para o agronegócio por atacar culturas de grande valor econômico. O artigo científico lembra que a espécie é uma praga importante de campo, com larvas que se alimentam de diversas culturas agrícolas, incluindo algodão, milho, tomate, frutíferas e plantas ornamentais.

A descoberta mostra como organismos considerados prejudiciais em um contexto podem revelar aplicações úteis em outro. Para o Brasil, que combina força agrícola, biodiversidade e centros de pesquisa de excelência, esse tipo de estudo abre espaço para inovação em bioeconomia.

Caso os fungos sejam confirmados como degradadores eficientes e seguros, eles poderão inspirar processos industriais, biorreatores ou enzimas voltadas ao tratamento de resíduos plásticos. Mas esse caminho ainda depende de testes de escala, custo, segurança ambiental e controle do processo.

Pesquisa brasileira mira solução para problema global

A poluição por plásticos é um desafio mundial, e o isopor está entre os materiais mais difíceis de lidar por sua baixa densidade, dispersão fácil e baixa taxa de reaproveitamento. Nesse cenário, soluções biotecnológicas podem complementar reciclagem, redução do consumo e melhoria da coleta.

O estudo da UFSCar e da Unesp não resolve o problema sozinho, mas oferece uma pista promissora. Ao identificar fungos capazes de crescer sobre o poliestireno e modificar sua superfície, os pesquisadores avançam na busca por alternativas mais inteligentes para tratar resíduos persistentes.

A principal mensagem é de potencial, não de solução imediata. A mesma lagarta que desafia lavouras pode ajudar a ciência a entender como a natureza encontra caminhos para interagir com materiais artificiais criados pela indústria.

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